Abílio Guerra

Caro Fernando Haddad,

Como você é um cara muito ocupado e eu gostaria de contar com sua leitura, vou ser breve, com apenas dois assuntos.

O primeiro é um elogio, merecido, creio eu. Não me recordo de nenhum prefeito anterior de São Paulo que tenha compreendido tão bem qual é a principal tarefa do cargo que ocupa. Parece simples, mas não é: transformar a cidade em um lugar mais agradável, mais gentil e mais harmonioso para todos os habitantes da cidade. Note que há uma relatividade na minha frase, não me refiro a um absoluto. Essa imensa metrópole onde vivem milhões de pessoas jamais será agradável, gentil e harmoniosa. Mas pode ser um pouco mais do que já é e isso você fez muito bem. Outra nuance da afirmação, que pode passar desapercebida em uma leitura apressada de uma pessoa tão ocupada, é a referência a “todos”. Também aqui é bom relativizar: nenhum prefeito vai conseguir tornar a cidade melhor para todos, mas é necessário que essa seja a meta das suas ações, nem que seja na forma possível de escolher a maioria.

Suas escolhas, entendo eu, sinalizam sua opção preferencial pela maioria, o que nem sempre é o mais fácil ou o mais visível. Temos aqui um paradoxo, pois cada um de nós tem expectativas a partir de nossa visão de mundo particular, onde nem sempre o valor coletivo ocupa lugar privilegiado. Chegar rápido ao nosso destino, por exemplo, é um valor supremo em uma sociedade onde o tempo vale dinheiro. Então não é difícil entender que um contingente expressivo de usuários de automóveis se sinta incomodado em andar um pouco mais devagar e de estar perdendo preciosos minutos de sua vida. Não consegue refletir e entender que talvez tenha em troco não perder a vida preciosa, não apenas a dos outros, mas a própria. Seria, talvez, cobrar demais de pessoas tão ocupadas que elas relevassem o fato incontestável que baixar a velocidade diminui o número de acidentes e, em decorrência, se amplia o fluxo e, no final das contas, se aumenta a velocidade média. A média envolve os outros, a maioria, e não conte que tais pessoas vão se enveredar por esse tipo de conjectura.

A diminuição de velocidade implica de forma direta na diminuição da poluição sonora: menos buzinas, menos frenadas, menos sirenes, menos gritos, menos soluços, em suma, menos barulho para incomodar os ouvidos das pessoas que estão paradas ou andando nos espaços livres da cidade. Aqui também a maioria se beneficia de uma cidade um pouco mais agradável, gentil e harmoniosa. Com velocidades mais baixas dos veículos, com menos confusão e acidentes, surgem três cenas possíveis envolvendo pessoas: quando ciclistas, podem circular em faixas exclusivas, ao lado dos veículos motorizados, com mínimas garantias de segurança; quando pedestres, podem andar mais tranquilas nas calçadas e praças públicas (e é sintomático que aqueles que reclamam da baixa velocidade máxima desconsiderem a segurança dos pedestres); e quando passageiros, podem atravessar segura as pistas de rolamento em faixas de pedestre até os pontos de ônibus e pegar seu coletivo para casa ou trabalho (vale dizer que os ônibus estão cada vez melhores, mais asseados e confortáveis). São coisas sutis, nem sempre visíveis para uma percepção embotada pelo frenesi sem fim de nossa metrópole, ainda mais a de motoristas apressados.

E, finalizando o primeiro assunto dessa mensagem, que já não está tão breve como eu queria – mas juro que não foi uma estratégia marota para ganhar sua atenção –, comento que os espaços públicos estão mais intensos, vivos, frenéticos, como gostamos nós paulistanos. Foi aposta sua – como pode se verificar no plano diretor – e você venceu. As pessoas gostaram de sair de casa e andar pela cidade, as calçadas estão sempre cheias nos dias de semana e também no final. Nos domingos ganhamos uma “rambla”, a Avenida Paulista, com gente de todo tipo, com muita cafonice como é conveniente à nossa cidade, mas vigorosa, como também nos convém. É formidável ver a mescla de tipos, gêneros, etnias, idades, modas e usos – quantos são os tipos de veículos sem motor que andam por lá sobre duas, três, quatro ou muitas rodas? – com as pessoas indo e voltando, parando às vezes para ver artistas e músicos de todos os estilos e qualidades (alguns sem nenhuma, infelizmente…).

Não exagerei nos elogios, creio que são merecidos. Mas, como nada e ninguém é perfeito, em sua imperfeição vejo uma inabilidade em lidar com um problema que me parece sério e faz parte do pacote de responsabilidades de um prefeito. Me refiro ao problema habitacional, em geral, e aos moradores de rua, em particular. No que diz respeito aos projetos de conjuntos habitacionais, vou ser sintético: não faz bem ao seu curriculum que qualquer um possa constatar que o governo anterior tenha feito mais e melhor. Aqui você vai ter que caprichar, caso seja reeleito (vou contribuir um pouquinho para que isso ocorra). Mas minha maior frustração em relação ao seu desempenho é na falta de aporte de inteligência no problema dos moradores de rua, a ausência de uma atitude à altura da sofisticação que o caracteriza. Eu sei muito bem que o problema é encrencado, que a maioria não quer ir para albergues, que são refratários às abordagens do serviço social promovido pela prefeitura. Mas algo tem que ser feito, o contingente tem se ampliado com a crise econômica e um número expressivo de homens, mulheres, idosos, crianças está no relento gelado das calçadas, praças e parques públicos, em péssimas condições de higiene e, nos meses de frio intenso que passamos agora, em situação de extrema vulnerabilidade, com a saúde física em risco. Não é possível que um homem tão inteligente como você nado tenha a fazer a respeito.

Desejando-lhe sorte e sucesso – um desejo um tanto maroto, pois eu serei um dos beneficiários – despeço-me com um abraço.

Abilio Guerra
Editor da Romano Guerra Editora e portal Vitruvius, professor da FAU Mackenzie


abilio-guerraAbílio Guerra é arquiteto (FAU PUC-Campinas, 1982), mestre e doutor em história (IFCH Unicamp, 1992, 2002) e professor adjunto de FAU Mackenzie (graduação e pós-graduação). Com Silvana Romano Santos, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius (www.vitruvius.com.br).

Foi curador da exposição Arquitetura brasileira: viver na floresta (Instituto Tomie Ohtake, 2010) e, ao lado de Marta Bogéa, da série de três exposições “Território de contato” (Sesc Pompeia, 2012).

Coordena o Conselho Editorial da revista científica Arquitextos (São Paulo, ISSN 1809-6298). É autor do livro O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp. Origem e conformação no universo intelectual brasileiro (Romano Guerra, 2010), co-autor do livro Rino Levi – arquitetura e cidade (com Renato Anelli e Nelson Kon, Romano Guerra, 2001) e organizador de diversas publicações, entre as quais os dois volumes dos Textos fundamentais sobre historia da arquitetura moderna brasileira (Romano Guerra, 2010).


Abilio Guerra is an architect (FAU PUC-Campinas, 1982), Master and Doctor in History (Unicamp IFCH 1992, 2002), and an associate professor of FAU Mackenzie (undergraduate and graduate). Together with Silvana Romano Santos, he is the editor of Romano Guerra Editora and of Portal Vitruvius (www.vitruvius.com.br).

He was the curator of the exhibition Brazilian Architecture: living in the forest (Instituto Tomie Ohtake, 2010) and, alongside Marta Bogéa, of the series of three exhibitions “Contact Territory” (SESC Pompeia, 2012).

He coordinates the Editorial Board of the scientific journal Arquitextos (São Paulo, ISSN 1809-6298). He is the author of the book O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp. Origem e conformação no universo intelectual brasileiro (Romano Guerra, 2010), and a co-author of Rino Levi – arquitetura e cidade (with Renato Anelli and Nelson Kon, Romano Guerra, 2001). He is also an organizer of several publications, including the Textos fundamentais sobre historia da arquitetura moderna brasileira (Romano Guerra, 2010).



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