Hugo Segawa

MEMÓRIAS DE 2009 EM 2016

Hugo Segawa

A edição de janeiro de 2009 da versão espanhola da revista Lonely Planet foi dedicada ao Brasil. “Magníficas praias, selvas impenetráveis e cidades cheias de cor e música”, lemos em um trecho da revista. Talvez por isso não há uma única foto da cidade de São Paulo em suas 162 páginas. Não é o mesmo espírito do Wallpaper* City Guide, que introduz São Paulo com uma comparação: “enquanto o Rio sempre teve praias, escolas de samba e turistas, São Paulo conservou uma imagem antiquada, como se fosse uma grande extensão urbana à la Blade Runner, tomada pela alienação e pelo perigo. De fato, para quem a conhece, a maior cidade da América do Sul sempre teve a energia, a sofisticação e o impulso modernista que a tornaram um destino obrigatório para viajantes mais aventureiros.”

“Viajantes mais aventureiros” foram os que contribuíram para criar um dos perfis culturais mais cosmopolitas da América Latina. Nenhum deles veio portando algum refinado guia turístico. Suas vindas alimentaram as volumosas (e hoje esquecidas) listas telefônicas com sobrenomes italianos, espanhóis, franceses, alemães, judeus, árabes, turcos, armênios, eslavos, russos, japoneses, chineses, coreanos e tantas outras origens, algumas delas sequer caracterizáveis como países. Isto sem esquecer os portugueses, os afro-descendentes e os nativos da terra: os índios. Contribuíram todos para construção da saga da cidade que comporta mais 11 milhões de habitantes. Entre o final do século 19 e o início do seguinte, relatos testemunhavam que em São Paulo o italiano era um idioma tão corrente quanto o português. Mas vieram, em diferentes ondas migratórias ou em pequenos grupos, de todas as partes do planeta, “fazer a América” – expressão que simbolizou o sonho de milhões de aventureiros de enriquecerem no Novo Mundo, rumando para New York, São Paulo ou Buenos Aires. Buscavam o mítico Eldorado do início do século 20 em terras paulistas, atrás da riqueza proporcionada pelo “ouro negro”. Não, “ouro negro” não é petróleo, como hoje poderíamos entender. Era o café. Grandes fazendas no interior do Estado de São Paulo demandavam trabalhadores braçais para plantação e colheita dos grãos para produzir essa infusão aromática que inebriava a alta sociedade europeia desde o século 19.

Com a fortuna do café, o financiamento da industrialização. Circulação de riquezas que patrocinou um dos mais impressionantes surtos de urbanização do século passado. Em 1874 a cidade não era mais do que um insignificante assentamento com pouco mais de 23 mil habitantes. Cerca de duas décadas e meia depois, em 1900, sua população atingiu a marca de mais 319 mil habitantes. Em 1920, a cidade abrigava 579 mil habitantes, para dobrar sua população em duas décadas, para mais de 1,27 milhões de almas em 1940. Meio século atrás, viviam em São Paulo mais de 3,45 milhões de pessoas. Em 1980, a cidade comportava quase 8,5 milhões de habitantes. Em um século, a população da cidade multiplicou-se por quase 34 vezes. Segundo as Nações Unidas, São Paulo era a quarta maior área metropolitana do mundo em 2007, com 18,9 milhões de habitantes, atrás de New York, Cidade do México e Tóquio. Projeção para 2025 prevê que São Paulo cairá para a quinta posição entre as maiores metrópoles, com 21,4 milhões de habitantes, atrás de Dacca, New Delhi, Mumbai e Tóquio, que seguirá ainda como a maior de todas.

São Paulo celebrou em 2004 seus 450 anos de fundação. Sua fisionomia em nada denuncia a idade. O passado mais longínquo está soterrado nas estratigrafias dos arqueólogos, que mal conseguem apontar superfícies que permitam escavações e coletas de artefatos. Os poucos remanescentes desse passado imemoriável se perdem nas novas camadas de construções que esboçam a convivência híbrida de arquiteturas, antiarquiteturas e a-arquiteturas. São Paulo é uma cidade de voraz e impiedosa autofagia. Se Salvador foi a capital-colônia do século 18, o Rio de Janeiro a capital-império do século 19, São Paulo é a capital-indústria do século 20. E Brasília será a capital-capital do século 21. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, que lecionou na então recém-fundada Universidade de São Paulo entre 1935 e 1939, escreveu em Tristes Trópicos o registro de sua experiência brasileira: “um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Poder-se-ia, com mais acerto, aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: elas vão do viço à decrepitude sem parar na idade avançada.” Viço, para São Paulo, podem ser os anos 1950-1960. Nessas décadas a cidade alcançou a condição de locomotiva econômica e financeira do país. Se um termômetro fashion são os guias turísticos – e seu olhar forâneo – todas as atrações apontadas em The City at a Glance na foto desdobrável da primeira capa do Wallpaper* City Guide de São Paulo são remanescentes dessa época: a Avenida São Luiz (repaginada naquelas décadas), o Edifício Itália, o Parque Ibirapuera, o antigo Hotel Hilton, o Museu de Arte de São Paulo e (em certa medida) os Jardins. Cinco das sete recomendações da seção Architour também estão relacionadas a esse período, diferentemente das indicações para cidades como Madrid, Tóquio ou New York. Claro que a amostragem da boa arquitetura de São Paulo não se limita a esses poucos exemplos de arquitetura moderna – muito ao contrário. A arquitetura moderna inserida no contexto tradicional é um mescla charmosa na paisagem da cidade-turismo.

Todavia, cada vez mais se torna difícil organizar um roteiro de obras recentes no qual a arquitetura é 100% nova. Quatro dos ícones desse roteiro mostram a intimidade entre a decrepitude e a contemporaneidade: a coexistência pacífica das antigas estruturais fabris e as inserções e novos edifícios de Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e André Vainer no SESC Fábrica Pompéia; a iconoclasta e antiacademicista intervenção de Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Colonelli e Weliton Torres sobre as quase-ruínas de Ramos de Azevedo na Pinacoteca do Estado; a conversão de parte da antiga Estação Ferroviária Júlio Prestes para Sala São Paulo de Concertos, por Nelson Dupré; e o infill do Museu da Língua Portuguesa na Estação Ferroviária da Luz, por Pedro e Paulo Mendes da Rocha.

A promiscuidade entre a decrepitude e a contemporaneidade não comparece apenas nessas arquiteturas de pedigree. A decadência do centro antigo (em torno do qual se fundou a cidade) e as faixas contíguas de expansão têm merecido a atenção das autoridades e das universidades. Uma iniciativa recente propôs a requalificação de degradados ou abandonados edifícios de escritórios, transformando-os em conjuntos habitacionais de interesse social, num esforço de “repovoamento” desses setores urbanos. Trata-se, no entanto, de uma ação ainda tímida em resultados. São Paulo não tem o menor pudor de esconder sua informalidade – no centro e em suas margens. A visibilidade da miséria simultânea à afluência também é uma marca da sua paisagem. Mas não se trata de uma peculiaridade paulistana. Se olharmos por sobre os muros que cercam o 21-21 Design Sight de Tadao Ando, a pobreza se esconde sob as anáguas do portentoso e sofisticado Tóquio Midtown. A requintada Lexington Avenue na Upper East Side em Manhattan transforma-se quando caminhamos para além da East 103rd Street. Não se trata de um lenitivo, mas uma constatação dos contrastes das paisagens metropolitanas, mesmo aquelas unanimemente consideradas prósperas “cidades-mundiais”.

Será São Paulo uma “cidade-global”, conforme as teorizações que ganharam força nas últimas décadas, ou apenas uma megacity? Setores empresariais, financeiros, consultivos, acadêmicos e governamentais apostam na inserção de São Paulo como partícipe do discurso das “novas geografias da centralidade”, a internacionalização da indústria financeira mediante uma rede de transações em escala mundial e a eleição de um reduzido número de lugares estratégicos dotados de redes de serviços, recursos e infraestrutura adequados aos fluxos gerados sob o signo da globalização. O Globalization and World Cities Study Group and Network (GaWC) classifica São Paulo como “Beta World City”; estudiosos a fazem figurar entre as 50 “cidades-globais” no mundo com grande capacidade de atrair recursos. Por oposto, outros setores acadêmicos argumentam sobre o caráter falacioso do conceito da “cidade-global”, refutam a ideologia da “cidade-global” como vetor de transformações urbanas, sobretudo frente às peculiaridades da cidade e do país. A crise financeira mundial detonada no trimestre final de 2008 inspira uma revisão completa dessa polêmica, e deixa em suspensão e suspeição o caráter redentor das “cidades-globais”.

No começo de maio de 2009, o Corinthians comemorou o título estadual com a decisiva participação do repatriado Ronaldo (ex-PSV, ex-Barcelona, ex-Internazionale, ex-Real Madrid, ex-Milan). No mesmo instante, a 5ª edição da Virada Cultural oferecia à população paulistana uma maratona ininterrupta em dois dias, com mais de 800 atrações em música, teatro, cinema e dança, em 30 pontos diferentes, concentrados na região central da cidade. A abertura do evento se deu ao ar livre com o Concert for Group and Orchestra, de 1969, escrito por Jon Lord, um dos fundadores do grupo de hard rock Deep Purple, com ele mesmo no teclado e a Orquestra Sinfônica Municipal. E o encerramento com os sambas de Maria Rita, a filha de cantora que iniciou a carreira nos anos 1960 na Bossa Nova. Estimativas oficiais registraram um público de 4 milhões de pessoas. Em meados de junho os organizadores da Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) esperavam pelo menos repetir na Avenida Paulista os 3,4 milhões de participantes do evento de 2008.

Em 2016, a Virada aconteceu em três dias, ocupando 28 ruas abertas, oito bibliotecas, nove centros culturais, sete teatros municipais, onze casas de cultura, dez CEUs e cinco palcos externos montados nos bairros, mas sem atrações bombásticas. Jon Lord faleceu em 2012. Enquanto os organizadores estimavam a presença de 3 milhões de pessoas na Avenida na edição 2016 da Parada GLBT, a Polícia Militar calculava o público presente em 190 mil.

Entre a crise mundial e crise local, São Paulo sobrevive.

São Paulo, 10 de junho de 20216


Hugo-SegawaProfessor Titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto. Livre-docente pela Escola de Engenharia de São Carlos/USP, Doutor e Mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/USP. Professor-visitante na Universidad Pablo de Olavide (Sevilha, Espanha), Universidad Nacional del Nordeste, Universidad de Tucumán (Argentina), Universidad Autónoma Metropolitana – Xochimilco, Universidad Autónoma de Yucatán (México), Tokyo University of Science (Tóquio, Japão), entre outras. Palestrante na Texas A&M University, Princeton University, Columbia University. Membro do Advisory Board do DOCOMOMO International (2004-2008), coordenador do DOCOMOMO Brasil (2002-2007). Autor, entre outros livros, de Architecture in Brazil 1900-1990 (New York, 2013), Arquitectura Contemporánea Latinoamericana (Barcelona, 2005), Prelúdio da Metrópole (São Paulo, 2000).

Líder do Grupo de Pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea. Dedica-se à docência, pesquisa e orientação de pós-graduação em temas de História da Arquitetura moderna e contemporânea brasileira e internacional, com ênfase no Brasil e América Latina, bem como à História da Paisagem, com ênfase ao estudo dos espaços públicos e jardins públicos urbanos. Ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (2014-2015). Prêmio America de Teoría y Crítica pelo conjunto de escritos e atividades de fomento e intercâmbio em pesquisa, concedido durante o 15º SAL – Seminario de Arquitectura Latinoamericana (Bogotá, 2013).


Professor of Faculty of Architecture and Urbanism at the University of São Paulo (FAU USP) in the Department of History of Architecture and Design Aesthetics. Lecturer at the School of Engineering of São Carlos / USP, PhD and MSc from the Faculty of Architecture and Urbanism / USP. Visiting professor at the Universidad Pablo de Olavide (Seville, Spain), Universidad Nacional del Nordeste, Universidad de Buenos Aires (Argentina), Universidad Autónoma Metropolitana – Xochimilco, Autonomous University of Yucatan (Mexico), Tokyo University of Science (Tokyo, Japan) among others. Speaker at: Texas A&M University, Princeton University, Columbia University. Member of the Advisory Board of DOCOMOMO International (2004-2008) and coordinator of DOCOMOMO Brazil (2002-2007). Author of books such as Architecture in Brazil 1900-1990 (New York, 2013), Arquitectura Contemporánea Latinoamericana (Barcelona, 2005), Prelúdio da Metrópole (São Paulo, 2000), among others.

Leader of the research group Architecture and the Modern and Contemporary City. Segawa is dedicated to the teaching, research and graduate orientation in History of Modern and Contemporary Architecture with an emphasis on Brazil and Latin America. As well as History of landscape architecture, with an emphasis on the study of public spaces and of urban public gardens.

Former director of the Museum of Contemporary Art, University of São Paulo (2014-2015). Winner of the America Award for Critique and Theory, awarded during the 15th SAL – Seminar of Latin American Architecture (Bogotá, 2013).

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