Laura Sobral

Fernando,

Cartas para mim são algo pessoal e essa não vai ser diferente.

Compartilho do sentimento de alegria de muitos paulistanos ao ver que vários espaços públicos de São Paulo estão sendo mais utilizados pelos seus habitantes.

Mas claro, ainda há muito a melhorar. Questões centrais ainda são negociadas tendo como base seu valor de troca e não de uso, por exemplo, os interesses imobiliários falam mais alto do que a qualidade de vida dos habitantes da cidade em seu direito ao uso dos espaços públicos ou direito à moradia. Ainda falta muito para a chegarmos a uma democracia de alta intensidade, que garanta aos habitantes de São Paulo o direito à cidade e a tantos outros direitos básicos.

Não sei quando chegamos até esse ponto ou se já houve algo diferente anteriormente, no que diz respeito à nossa cidade e política. Não que eu me lembre. Me refiro ao fato de mirar o melhor que pode ser feito, mas muitas vezes não dando conta do básico: de meados dos anos 80 até hoje, vi avanços, vi o país deixar de ser referência de uma população miserável, vi a minha cidade se afundar no seu amor pelos carros e buscar a bicicleta como alternativa de mobilidade, vi os espaços públicos ficarem mais vivos; mas também vi a educação pública ir de mal a pior, vi a polícia bater e bater sem motivos, vi a criminalização do uso das ruas e da manifestação política, vi direitos humanos serem atropelados por crenças religiosas.

Penso que muito se deve ao fato dos habitantes da cidade não terem consciência da sua cidadania e de que fazem política e a sua cidade todos os dias. De educação crítica precária, a grande parte dos usadores da cidade não se sentem parte dela, mas sim oprimidos por ela. Como urbanista, entendo que enquanto não nos sentirmos participantes da cidade não teremos a dimensão do que é habitar o espaço público, não participaremos das instâncias de troca entre poder público e sociedade civil, seremos passivos e não ativos.

Desde que tive essa percepção, ainda na faculdade, publicizar os espaços públicos da cidade de São Paulo tornou-se meu objeto de pesquisa e de ações coletivas. Foquei minhas energias e meus estudos nas ações de democratização e publicização dos espaços públicos. Acredito que se a pluralidade legítima desses espaços se concretizar, as ideias resultantes das trocas e negociações do encontro entre os diferentes só podem trazer melhoras para a qualidade de vida na cidade.

Mas ser fazedor é ser imperfeito. É se dispor a fazer – ainda mais agindo na rua – e as coisas não saírem exatamente como planejado. É ter que disputar bastante, ser admirado, difamado, ter pequenas vitórias e tantas derrotas. Senti isso ao máximo com o início e desenvolvimento d’A Batata Precisa de Você, quando começamos a ocupação semanal do Largo da Batata. Uma ocupação pela construção sólida de uma esfera pública, pelo espaço público no sentido de espaço de todxs, apropriado, comum. Fazer com que as ocupações regulares do espaço não percam sua vitalidade com certeza é um desafio. Outro é como compartilhar ao máximo o espaço entre as diferentes demandas mantendo o bom senso, um uso não impedindo o outro, por exemplo vizinhos que querem silêncio e pessoal que quer levar a festa madrugada a dentro. Como garantir a manutenção do nosso equipamento e a sua boa gerência se organizando da maneira mais horizontal possível; como lidar com os haters, etc. São muitas as demandas de difícil equação.

Uma constante é eu me perguntar se ainda chegarei a ver na minha cidade as decisões sobre os espaços públicos e a produção da cidade serem tomadas realmente de forma participativa e de acordo com o interesse público. Infelizmente, do jeito que vamos, temos pequenos sucessos e falhas estruturais. A vontade política não chega a tanto. É revoltante saber que é um jogo de poder e não uma impossibilidade prática.

Querer os espaços públicos apropriados pelos cidadãos e a produção participativa da cidade é uma luta pela melhor qualidade das cidades. Chegamos na Lua mas o sistema de produção e gerência dos espaços públicos não se transforma, vivemos nesse mundo onde as prioridades parecem escolhidas a esmo mas são, na realidade, bem calculadas para manter privilégios.

Temos que fazer uma nova política. Não sei como será, mas, com certeza, muito distante do que temos hoje. Não acho que ações possam ser perfeitas — “na prática a teoria é outra” — mas aprender e inventar algo diferente está ao nosso alcance. Chega de repetirmos os mesmos erros, de novo e de novo. São urgentes novos caminhos, que gerem novos erros e novos aprendizados.

A Batata Precisa de Você assim como muitos outros movimentos urbanos contemporâneos de São Paulo busca uma nova política pela transparência, pela discussão pública do processo, pela politização das ações contemporâneas, por valorizar o corpo na rua e suas performances, por incentivar as soluções faça-você-mesmo e a cidadania ativa. Na minha opinião, um horizonte promissor está em movimentos como o dos secundaristas, ocupando suas escolas e repensando seu funcionamento, uso, propósito, sistema.

O teste de novos formatos de participação, como por exemplo, a prototipagem coletiva de ideias; o desenvolvimento de ferramentas que possibilitem a gestão compartilhada de espaços e equipamentos públicos pela colaboração entre sociedade civil e poder público; o reconhecimento de territórios piloto para o teste de alguma políticas públicas de cooperação em menor escala são pontos importantíssimos para serem desenvolvidos pelo poder público em conjunto com os cidadãos. A instauração desses processos certamente apontaria para que os espaços públicos da cidade de São Paulo sejam mais inclusivos, interativos e justos.

Instrumentos jurídicos e políticas públicas que permitam a gestão compartilhada – centradas na interação entre sociedade civil e poder público – dos bens comuns da cidade, em especial nos espaços públicos, têm urgência de serem criados coletivamente e implementados.

Uma maior simetria deliberativa entre Estado (não esse Estado, mas um democrático realmente representativo) e sociedade civil é necessária.

Não sei se essa mudança vai acontecer, mas ela tem que acontecer, e é esse o nosso motor.

Laura Sobral

laurasobral.com

Urbanista e articuladora cultural

Membro-fundador do Instituto A Cidade Precisa de Você

Sócia da produtora MUDA práticas

Participante d’ A Batata Precisa de Você

Parte da Bancada Ativista


laura-sobralUrbanista, arquiteta, Laura Sobral se graduou pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Politecnica de Madrid e atualmente é mestranda na Universidade de São Paulo, onde pesquisa sobre a produção social dos espaços públicos e comuns. Desde 2007 Laura pesquisa e realiza intervenções urbanas, arquiteturas temporárias para a ativação dos espaços públicos. Em janeiro de 2014 teve a iniciativa do A Batata Precisa de Você, movimento de ocupação regular do Largo da Batata, que evidencia, por meio do urbanismo tático, os potenciais de ocupação da praça, prototipando mobiliário urbano e promovendo atividades culturais e de lazer para pensar coletivamente alternativas de produção de cidade com a participação efetiva de seus cidadãos.

É sócia da MUDA práticas, empresa idealizadora e realizadora de projetos culturais no espaço público, trabalhando com exposições, publicações, intervenções artísticas e ativação cultural, entre outros. É fundadora do Instituto A Cidade Precisa de Você, que tem como foco os espaços públicos urbanos e a articulação entre os vários atores dos territórios da cidade. Pelo Instituto, é membro da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana.

Laura é palestrante do TEDx e atua também internacionalmente, tendo recentemente representado a sociedade civil brasileira falando sobre cidades no evento da ONU – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, na sede na ONU, em Nova Iorque, e palestrado no maior evento sobre Espaços Públicos do mundo, o Future of Places, em Estocolmo.


 Laura Sobral is an Urbanist and Architect. She has a BA in Architecture and Urbanism from the University of Sao Paulo [USP] and completed an exchange program at Universidad Politecnica de Madrid in 2008. Since 2007, Laura has been researching and organizing urban interventions and temporary architecture projects in public spaces with the intent of foster the active citizenship, linking the themes culture and city. One of the results was the creation of the initiative A Batata Precisa de Você [The Potato Needs You], a occupy movement that encourages the regular and collective usage of an empty square in São Paulo, Largo da Batata, reconecting the citizens with the territory by the sense of belonging.

Nowadays, Laura is doing her MSc in Social Foundations of urbanism at USP, where she is researching the social production of public spaces.Moreover, Laura is a partner at MUDA, promoting cultural and educational activities mainly in public spaces. She coordinates the MUDA Urban Practices, developing and  implementing projects that bring public spaces into life.

Laura is also a co-founder of the Instituto A Cidade Precisa de Você [The City Needs You Institute], a NGO that aims to improve public spaces by social actions, producing publications, projects, seminars, etc.

Laura is a TEDx speaker and works also internationally, having recently represented the Brazilian civil society talking about cities in the United Nations Sustainable Development Summit 2015 – at the UN headquarters in New York. Furthermore, she also presented in the largest event about Public Space of the world, the Future of Places, in Stockholm.


http://www.laurasobral.com



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